Rádio ligado
troco estações porque não sei o som que você
pode odiar
No supermercado
eu tento escolher o mesmo sabor que você
deve gostar
(Pato Fu)
Naquele show do Pato Fu que se conheceram. No bar do teatro, antes de entrar, começaram a dizer o que cada um pensava sobre a banda. Guilherme disse que havia visto um show da turnê Televisão de Cachorro. William disse que conheceu a banda nesse período, mas só foi ver um show na turnê de Toda Cura Para Todo Mal. Aquela noite a apresentação seria de cadeiras marcadas. William pegou um lugar do lado direito do palco, Guilherme do lado esquerdo. Sempre que as luzes se acendiam, no intervalo entre uma canção e outra, um acenava para o outro. Estavam bastante empolgados, afinal era a banda preferida de cada um deles.
Quando terminou o show, ficaram juntos na fila de autógrafos, conversaram alguns minutos com John e Fernanda, tiraram fotos e tudo mais. Resolveram estender a noite num bar ali perto mesmo, afinal era cedo para ir embora e o final de semana prolongado estava só começando. Conversaram sobre o Pato Fu, é claro, mas uma cerveja vai, outra cerveja vem e os temas se variaram. Guilherme gostava muito de futebol e falava sobre suas impressões acerca do sucesso que o Santos havia conquistado entre os mais jovens. William gostava muito de cultura pop e falava sobre a influência da Lady Gaga tanto no mainstream como no underground. Havia uma sintonia entre eles e uma amizade estava à vista.
Em casa, Guilherme lembrou do novo amigo e chegou a comentar com a namorada sobre William. William, por sua vez, não tinha namorada e só conseguia pensar em Guilherme o tempo todo (sentimento que ele chamou de “ressaca pós-show”). Era Guilherme no café da manhã, Guilherme no almoço, Guilherme no filme da televisão, Guilherme na página noventa e sete daquele livro de Tenessee Williams que ele estava lendo. Resolveu ligar para o Guilherme antes mesmo de o feriado terminar. Não custava nada marcar uma cerveja e tal, mas Guilherme iria descer para o litoral com a namorada. Namorada? William sentiu uma coisa esquisita e a ficha caiu: estava apaixonado.
Putz, cara, não era possível que isso lhe fosse acontecer de novo. Naquela idade? Já não era mais adolescente. Desesperou-se com o fato de estar apaixonado e mais ainda com o fato de o amado ter namorada. Com certeza é heterossexual. Que bosta, de novo! Isso já lhe havia acontecido duas vezes na vida, sempre com muito prejuízo, dor de cabeça e finais sem começo.
Dessa vez William resolveu fazer diferente. Iria contar para o amigo o sentimento que tinha por ele. Resolveu convidar Guilherme para um bar no final de semana seguinte. Guilherme aceitou. Mas a namorada foi junto. E a namorada era linda. E legal. Lisandra ficou amiga de William também. Depois de algumas cervejas ele contou para o casal sobre a sua homossexualidade, mas nada falou sobre a paixão que sentia. Os novos amigos receberam muito bem a novidade e até parabenizaram William pela coragem e a sinceridade.
Mas ele tinha que contar o que sentia pelo Guilherme para o Guilherme. Chegou em casa e, ainda sob efeito do álcool daquela noite, escreveu um longo e-mail para o amigo falando sobre seus sentimentos. A resposta veio no dia seguinte e era a que ele esperava, mesmo: em poucas linhas Guilherme disse que era heterossexual e a única possibilidade que tinham de relação era aquela amizade que já estavam construindo.
William foi até a estante de CDs, pegou o disco Toda Cura Para Todo Mal, de sua banda predileta, deu uma olhada na foto em que estavam ele, John, Fernanda Takai e Guilherme, pôs o disco no aparelho de som e saiu cantarolando pela casa: “a gente se acostuma com tudo, a tudo a gente se habitua, e até não ter um lugar, dormir na rua, a tudo a gente se habitua”.
