No bar o homenzinho bate a mão na mesa e anuncia com a voz num tom mais grave que o habitual a novidade: “peguei a gostosa da seção 22″. Nesse momento é possível ouvir urros e brindes. “Cachorrona!”, grita um dos colegas do homenzinho, “aquela puta deu pra mim no banheiro da chácara de fim de ano”. Mais urros e barulhos de copos tilintando. Atrás deles, na propaganda de cerveja, Juliana Paes posa de biquini, fazendo cara de safada.
Nesse instante entra no bar um belo rapaz sem camisa, de bermuda e suspensório. Todos os caras chiaram ao mesmo tempo, fazendo caras e bocas. “Esse desmunheca”, gritou o homenzinho enquanto todos se entregavam a uma estrondosa gargalhada. Instantes depois o rapaz sai do bar chorando e gritando: “vai dar o cu, seu enrustido”. A companheirada gargalhou mais uma vez. O garçom se aproximou da mesa deles e contou que expulsou o rapaz do bar porque ele estava bêbado, sem camisa e rebolava, as pessoas ficam constrangidas com isso. O homenzinho apoiou com a cabeça a atitude do garçom e disse: “essas bibas são muito vulgares. Será que o boiolinha não reparou que tem crianças nesse bar?”, concluiu, apontando a mesa ao lado da sua, onde uma família lanchava e se divertia.
A sodomia era considerada perversão sexual em algumas sociedades antigas. Nos relatos da Bíblia, dar o cu era pecado e, segundo interpretações realizadas por igrejas cristãs, isso fez com que Deus, por meio de sua fúria, acabasse com duas cidades: Sodoma e Gosmorra (Gênesis, capítulo 19).
Na época da inquisição, a sodomia era considerada crime sexual.
O antropólogo brasileiro Luiz Mott teve acesso a alguns documentos. Segundo descrição dos inquisidores feita em 1646, Luís Gomes Godinho era um homem magro, alto, tinha cabelo crespo e pouca barba. Foi preso sob a acusação de ser um “sodomita devasso”.
Sob pressão dos inquisidores, Godinho confessou mais de duas dezenas de atos homoeróticos, como “agente e paciente”. Contou que foi possuído de “ilharga” (“de ladinho”) pelo seu patrão, que participou de um ato de “sodomia completa” com um sacristão e de outro incompleto com um preso. Relatou que fizera parte de uma “suruba” com seis sodomitas, entre os quais um padre e um militar, e que já participara de vários “molícies”.¹
Homossexuais ainda hoje são vistos como gente vulgar, devassa e promíscua. Provocam as pessoas com o seu comportamento leviano, gestos obscenos e palavrões. São imorais. “Não é à toa que existe pedofilia”, pensam os mais antenados com o padrão católico de comportamento. Os homossexuais são anormais, afinal não se enquadram nos termos da modernice heteronormativa. Talvez pelo motivo de não concordarem que azul é cor de menino e rosa cor de menina sintam-se um pouco deslocados de vez em quando. Terminam por criar linguagens próprias, algumas vezes questionadoras, outras vezes ininteligíveis por quem não faz parte do seu universo guetificado.
Mas o que é promiscuidade? Segundo a Wikipédia, “promiscuidade denota um comportamento sexual humano, de sexo casual entre pessoas conhecidas ou não conhecidas entre si, principalmente entre pessoas não casadas”. O movimento GLBT há anos vem lutando pelo direito do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Na Califórnia, a “Proposição 8″ vem causando muita polêmica por ser um projeto de lei que propõe a proibição do casamento gay. Diversas campanhas estão pipocando nos EUA. Em uma delas, os atores Justin Long e Mike White protagonizam um vídeo que trouxe alguns elementos especiais para essa discussão: eles vivem uma história de amor em que o entusiasmo do início de sua relação vai se desgastando com o passar do tempo.
Uma instituição conservadora como o casamento é, hoje, uma das maiores bandeiras de luta do movimento GLBT no mundo. Então como é possível dizer que homossexuais são, em sua maioria, promíscuos? Questionar a moral estabelecida não é sinônimo de leviandade. Pelo contrário: algumas posturas dos homossexuais são uma forma de subverter a linguagem e representam muito mais um instrumento de resistência que um sinal de devassidão.
A notícia divulgada essa semana pelo Ministério da Saúde mostra que os jovens gays do sexo masculino se protegem menos que os heterossexuais em suas relações: “53,9% dos homossexuais entre 13 a 24 anos usaram camisinha na primeira relação sexual, índice abaixo dos 62,3% registrados entre heterossexuais na mesma faixa etária”². À primeira vista pode parecer um dado revelador de quanto os homossexuais são mais promíscuos. No entanto, a mesma pesquisa divulgou números que demonstram os altos índices de violência sofrida por esses jovens que nos ajudam a tirar outras conclusões:
Entre homossexuais ouvidos no estudo, 12,4% disseram já ter sido agredido fisicamente, 51,3% disseram já ter sido discriminados no trabalho e 29,6% ter sofrido discriminação por causa da orientação sexual alguma vez na vida. O estigma está presente também nas escolas e ambientes religiosos: 28,1% disseram ter sido discriminados no ambiente escolar e 13%, em locais de prática religiosa².
A discriminação e a violência são elementos que impedem o homossexual de assumir publicamente sua orientação. Estar dentro do armário significa ter de se esconder para poder relacionar-se livremente com a pessoa que ama ou com um parceiro sexual. O ato sexual é tido como proibição e só pode ser realizado na marginalidade. Banheirões públicos, becos, bosques e dark rooms de casas noturnas são espaços em que frequentemente se relacionam pessoas do mesmo sexo, especialmente as mais pobres que geralmente moram com os pais e não tem condições financeiras para pagar um motel. Nem sempre se tem uma camisinha à mão. Para ter coragem de chegar a esse tipo de ambiente e assumir as posturas que aí se exige, muitos jovens se apegam ao artifício da bebida alcóolica ou até mesmo drogas ilícitas, o que aumenta sua vulnerabilidade.
Em 1968 ficou conhecido mundialmente o movimento que questionava os padrões morais, religiosos e econômicos que reprimiam os desejos de homens e mulheres. Um discurso ao melhor estilo é proibido proibir tomou conta de manifestações juvenis em todo o mundo. Valores defendidos por essa geração tornaram-se conquistas que puderam ser vivenciadas pela atual geração. A chamada revolução sexual deu maior liberdade às mulheres e expressões sexuais que antes eram reprimidas. No entanto, ainda se vive sobre regras arbitrárias. Juliana Paes, ídolo pop da televisão brasileira, pode sorrir de biquini com a lata de cerveja na mão, mas Geisy Arruda, estudante suburbuna, não pode ir com seu vestido rosa à universidade. Segundo a psicóloga francesa Elisabeth Daibleu, as pessoas continuam extremamente presas a valores antigos:
Não vivemos uma sexualidade livre da mesma forma que não vivemos numa sociedade livre. Ainda somos vítimas de pré-julgamentos impostos pela moral que permeia o meio em que vivemos, ainda que eles estejam camuflados³.
A psicóloga lembra que durante aquele movimento não se previu que casais homossexuais conquistariam o direito ao casamento, no entanto, também não é possível entender como mais de quarenta anos após as manifestações ainda existiriam países que determinassem as relações entre pessoas do mesmo sexo como crime.
A revolução não pode ser apenas moral. É necessário que se mude toda a estrutura ideológica predominante. A maneira como se organiza a sociedade, hoje, faz com que uns poucos privilegiados possam exercer uma liberdade especial, a dita liberdade de consumo, enquanto a maioria das pessoas ainda vive de migalhas e faz da sua diversão uma festa clandestina. Não é possível ser livre se a manifestação de sua identidade fica restrita aos porões, becos e vielas. Isso não se limita aos problemas vivenciados pelas pessoas homossexuais, mas pode ser observado na vida dos que professam sua fé em religiões afro-brasileiras ou no trabalho dos artistas de rua, por exemplo.
A glamourização da vida homossexual divulgada pelas novelas em que gays são aceitos pelos pais, não sofrem violência e vivem felizes para sempre com seus parceiros não reflete, de maneira alguma, a realidade da maioria dos homossexuais. Gays e lésbicas trabalhadores são massacrados diariamente pela opressão a que são sujeitados por manifestar sua orientação sexual. Travestis e transexuais sofrem com a discriminação e a violência inclusive em seu próprio meio. Submeter-se a um cotidiano de exploração sexual não é nenhum tipo de bagunça, não.
Faz-se necessária a construção de um movimento GLBT que consiga, além de afirmar os direitos dos homossexuais e levantar a bandeira do orgulho, pensar numa transformação radical das bases que fabricam a opressão e promover a mudança estrutural dessa sociedade que, ainda hoje, mais de quatro décadas depois da revolução sexual feminista e da rebelião de Stonewall, continua machista e homofóbica. Assim como disse Harvey Milk, “não é possível viver só de esperança, mas sem ela não vale a pena viver”. O movimento da luta contra a opressão tem que ser ele mesmo já um sinal da mudança possível. “Sem esperança nós desistimos”.



