Quer ver polêmica? Diga que uma cena de luta livre se parece com uma posição homoafetiva. Saia correndo, porque isso é perigoso. As pessoas não gostam de ser comparadas à homossexuais (como se ser homossexual fosse ruim). Uma vez postei a imagem abaixo no facebook e um amigo disse que isso prejudicava a imagem dos lutadores de jiu-jitsu (porque eles sofrem muito preconceito). Na época fiquei bastante assustado com a afirmação do meu amigo, hoje aprendi que precisamos mostrar às pessoas o que é a homofobia para que elas possam entender.
Por mais que as pessoas afirmem não ser homofóbicas (ou racistas, ou machistas), elas acabam por reproduzir a opressão em seu cotidiano sem nem mesmo perceber. Um tanto por não saber o que é a opressão, outro tanto por que a opressão é ideologia e a ideologia está impregnada nas músicas, nos filmes, novelas, comerciais, piadas, humorísticos, em mim e em você. Opa! Pode crer. Existem homossexuais homofóbicos da mesma maneira como negros racistas ou mulheres machistas. Lutar contra o racismo, o machismo e a homofobia, muitas vezes, é lutar contra algumas de nossas convicções mais enraizadas, contra nós mesmos.
Uma vez escrevi aqui um post em que eu subvertia um pouco o Freud. Falava sobre o local onde está a homofobia de cada um: o Superego, que carrega as proibições. Algumas regras da moral estão incrustadas em nossa mente e, de tão firmes, temos dificuldade em perceber que estão lá. Aí saímos por aí reproduzindo a opressão, rindo de piadas absurdas (ou contando elas aos amigos).
É importante aos gay friendly entender que “xingar” alguém de homossexual é achar que a homossexualidade é uma coisa ruim. Também é importante saber que sentir-se ofendido por ser chamado de homossexual ou comparado a um não-heterossexual também é perceber a homossexualidade como algo ruim, humilhante. E, devo dizer, isso é homofobia. Nós, os não-heterossexuais, sentimo-nos oprimidos quando alguém tem aversão à nossa imagem.
A coisa mais linda do mundo é ter amigos que permanecem ao seu lado sem ter medo de serem comparados a você. Se são chamados de “bicha!”, respondem: “e daí, e se eu fosse?” e continuam caminhando ao seu lado. Até porque, como cantam os Autoramas, “se o problema é ter que me afirmar, eu não tenho mais nada pra provar a ninguém”.
São tolices que penso sobre você. Você não pensa em mim por que andamos na mesma rua? Vivo sonhando, imaginando você. Imagino pegadas e as vou seguindo (Edgard Scandurra)
Minha tia chegou em casa e perguntou se eu estava namorando. Quer saber quando é que eu vou casar, afinal, meus primos todos já estão grávidos. Como pode um menino tão fofo ainda não ter namorada? Já está na idade, já. Esses jovens de hoje, viu? Ela perguntou se eu não ia cortar o cabelo. Eu disse: “não, tia, não vou”. Não quero casar com menina nenhuma, vontade de mandar pro inferno. Esse papo de casamento, esse papo de gravidez. Esse papo.
Lembro-me daquela vez que escrevi uma cartinha de amor pra Gisele. Todo mundo escrevia cartinha de amor pra Gisele, menos eu, então tive que escrever uma. Ficou linda. Mas depois nunca mais eu consegui olhar pra cara da Gi. Tive vergonha. Passou um tempo, conheci a Manu. E contei pra todo mundo que eu estava namorando a Manoela. Mas eu ainda não tinha contado isso pra ela, coitada, nem sabia que namorava comigo. Era linda, a Manu. Não sei se ela soube que um dia já foi minha namorada.
Eu era um tanto confuso. Ora insistia em dar flores para as meninas da escola, ora tinha medo delas (elas eram sensíveis demais e pareciam saber mais de mim que eu mesmo). Gostava de ouvir Legião e Pato Fu, não jogava futebol. Não era fácil entender muito bem o que se passava. Alguma coisa me dizia que eu era uma aberração pecaminosa e doente. Não entendia muito bem de onde vinha aquela voz na minha mente: “VOCÊ NÃO PODE, VOCÊ NÃO PODE”. Não posso o quê?
Na adolescência é sempre difícil entregar aquele bilhetinho de amor. A aproximação para o primeiro beijo não acontece sem muita tensão, ansiedade e nervosismo. A primeira relação sexual é um desastre: onde, quando, como? A insistência em realizar essas experiências no mesmo tempo de meus amigos me ajudou a entender o que se passava aqui dentro. E a partir daí as coisas começaram a ficar ainda mais difíceis. Todos os meus amigos tinham dificuldade em entregar o bilhetinho para a pessoa amada. Eu tinha mais dificuldade ainda. Porque o bilhete deles era normal. O meu era torto. O primeiro beijo do Tiago com a Ruth foi cheio de mistério, ele ficou um dia sem comer. Disse que seu coração batia acelerado. O meu primeiro beijo nunca acontecia. Tentei com Vanessa, com Michele e com Pâmela. Meu coração, como o de Tiago, também batia acelerado, mas o beijo não aconteceu. Sexo? O que era isso, mesmo?
O gigantesco SUPEREGO (que alguns chamam Deus, outros chamam consciência e um povo aí resolveu nomear homofobia internalizada) nos impede de entender aqueles sentimentos totalmente fora da norma que vêm a tona no tempo mais controverso da vida. Comecei a perceber que aqueles sentimentos que meus amigos tinham pelas meninas eu tinha por alguns deles. Meu coração acelerava quando eu ia falar com o Tiago. Meu pênis ficava ereto diante do Wellington. Coração bobo, pinto levado. Estava tudo errado.
Demorou muito para que eu pudesse entender as ideologias que constroem os padrões para o que será considerado certo ou errado. Para ninguém amar era proibido. Por que para mim seria? Talvez porque fosse perigoso, afinal eu era uma aberração. Mais adiante descobri que existem lugares para que as aberrações possam se encontrar sem medo. Os guetos, verdadeiros campos de refugiados (caríssimos) onde as pessoas podem se mostrar como são. Ali uma aberração entende a outra. E mesmo ali o grande SUPEREGO nos acompanha. É preciso beber um pouco pra começar a ter coragem. É preciso beber mais um pouco pra ir pra pista de dança e mais um pouco pra conseguir tocar na outra aberração. Acontece o flerte fatal e, no final, em meio a um estranho constrangimento, cada aberração pega o seu barco e volta pro ninho.
Dizem por aí que o SUPEREGO é a parte do juízo solúvel em álcool. E o álcool, por sua vez, é uma espécie de suco de frutas Gummi, ou aquele espinafre do marinheiro Popeye. A bebida alcoólica (dentre outras drogas) é um instrumento muito utilizado pelos homossexuais seres humanos para poderem se livrar da culpa, do medo ou da vergonha. E isso pode gerar problemas como: “nossa, como era mesmo o rosto daquela pessoa que eu beijei ontem?” ou “ai, esqueci de pôr a camisinha”, quando não causa dependência. Muitas aberrações só se mostram aberrações na balada. Durante o dia permanecem disfarçadas, como um mutante com medo de ter os seus poderes descobertos. E isso impede, por exemplo, a construção de relações mais profundas. O amor acontece por uma noite apenas, já que ninguém pode descobrir quem eu sou.
É verdade que do lado de fora as coisas não são tão fáceis assim. Dar a cara a tapa é uma atitude de muita coragem e estar fora do armário traz consequências definitivas para a vida dos homossexuais (às vezes consequências bastante dolorosas, outras vezes agradáveis, mas sempre marcantes). O maior benefício de ser uma aberração assumida é o fato de poder lutar por direitos e tomar partido na construção de uma sociedade diferente. Não é possível para os homossexuais seres humanos encontrar a felicidade na sociedade em que vivemos hoje, especialmente para os mais pobres. As revoluções que proclamavam liberdade, igualdade e fraternidade limitaram-se a melhorar a vida de uns poucos. Cadê a minha fatia do filé?
Já é hora de nos libertarmos de todas as correntes que nos impedem de sermos nós mesmos. Tem gente que acredita no fim do mundo, mas não acha que é possível transformar essa sociedade machista, racista e homofóbica. Eu acredito que é possível e, para me livrar do gigante SUPEREGO, tornei-me militante e estou disposto a enfrentar o que for necessário, como um verdadeiro guerreiro, para que haja um mundo novo em que eu não precise disfarçar o meu rebolado. Usarei meus poderes de aberração mutante para acabar com a exploração que nos extorque toda a riqueza que produzimos e para construir o socialismo – que acredito ser a única forma de, hoje, darmos um basta ao que nos impede de sermos felizes. Pós modernos que me desculpem, mas estou com Malcom X e não abro: Não há capitalismo sem homofobia.
A participação de três homossexuais assumidos na décima edição do Big Brother Brasil causou uma grande discussão entre os militantes. Alguns comemoraram com entusiasmo a presença de Dimmy, Dr Orgastic e Angélica no programa da rede Globo. Outros protestaram tendo em vista que a participação no programa não garantiria visibilidade, já que os representantes não teriam capacidade de levar o debate sobre os direitos dos GLBTs à mídia. Alguns chegaram a argumentar que Sérgio e Dicésar, especialmente, contribuiriam para uma maior estereotipização, já que os dois eram demasiadamente afeminados (discurso que esconde consigo uma forte dose de homofobia).
Na primeira edição do BBB muita gente curiosa quis comparar o programa a uma experiência científica, como se os participantes fossem ratinhos de laboratório. A realidade, porém, mostrou que não era nada daquilo. Nada de ciência. Nada de filosofia. Imagem, apenas. Uma boa produção, roteiro e edição, como qualquer novela que se preze. Na décima edição os participantes foram divididos por tribos, uma mais questionável que a outra. A única tribo que parecia ter um significado era a dos coloridos (nome que “pegou” dentro do universo GLBT). A direção do programa (diga-se Boninho) foi enfática ao privilegiar a participação dos coloridos.
Quando Dicésar disse em uma conversa com a parceira Angélica que se pudesse escolher não ser gay, ele não seria, muita gente do movimento caiu em cima da diva das boates e paradas gay. Dimmy Kieer, com todo o seu brilho, não escondeu um dilema existencial que – não sejamos hipócritas – está presente na vida de grande parte dos homossexuais. É claro que é necessário fazer campanha pelo orgulho gay, no entanto, não é preciso esconder os dilemas que essa orientação traz para a vida do sujeito.
Essa semana saiu uma propaganda no site da Folha falando sobre o livro A Experiência Homossexual de Marina Castaneda (A Girafa). Sérgio Ripardo escreveu na resenha:
Nunca estamos preparados para sair do armário. Não sabemos o que dizer para amigos, parentes e colegas de trabalho. Tememos suas reações. Pagamos um preço alto por expor em praça pública nossa orientação sexual, ainda estigmatizada. O roteiro mais frequente desse rosário: alguns amigos fogem de você com medo de serem confundidos ou vistos como “metidos com gays”; as namoradas deles desconfiam de você, que passa a ser encarado como uma “ameaça”; dependendo do seu emprego, não espere entusiasmo, afinal, muitas empresas ainda consideram o assunto um tabu.
Subvertendo Freud
Na aula sobre machismo e homofobia que dei aos meus alunos, esta semana, eu tive que falar do Freud. Perguntei a um aluno da sala se ele gostava de bife de fígado, ao que ele respondeu: “não”. Então perguntei-lhe quando foi que ele decidiu não gostar de bife de fígado. Silêncio na sala. Aproveitei a brecha para explicar alguma coisa que eu sei sobre o Id: o campo dos desejos é impulso, é animal e é inconsciente, não faz parte daquelas coisas que a gente escolhe. Se o sujeito heterossexual está no ônibus lotado e pára em sua frente uma menina linda e cheirosa, ele não tem como segurar a ereção. A sala foi ao delírio quando eu disse isso, é claro, o que me proporcionou maior segurança para continuar o debate.
Expliquei à galera que o Superego também é inconsciente e é a parte da nossa personalidade responsável pela moral: aquelas regras básicas de convivência que são construídas ao longo de nossas vivências. Segundo Freud, o homem não seria capaz de viver em sociedade se não fosse regido por leis. Assim, o cara no ônibus logo pensaria: “putz, aqui eu não posso” e procuraria sublimar seu desejo. Essa reflexão é feita pelo Ego (parte consciente da nossa personalidade), contei eu à meninada.
Foi aí que chegamos ao ponto: e quando o menino que está no ônibus lotado, voltando do trabalho, fica excitado quando um rapaz bonito, forte e cheiroso pára em sua frente? O que ele vai pensar? A primeira coisa que vem à cabeça é um NÃO do tamanho do mundo. A mesma coisa diz a autora do referido livro em trecho que foi publicado na propaganda do site da Folha:
Com efeito, todas as crianças crescem com a idéia de que um dia vão se casar e formar família: é o que lhes repetem incansavelmente seus pais, a escola, a cultura e a sociedade em geral. Dar-se conta de que isso, provavelmente, não acontecerá, e que será necessário renunciar a um projeto de vida longamente preparado, é um processo extremamente lento e doloroso. Trata-se de uma perda importante e, como em qualquer perda, há um trabalho de luto a ser feito.
Assim, não fica difícil entender a honestidade contida no desabafo de Dicésar. Essa edição do BBB foi positiva, sob o meu ponto de vista, por ter trazido à tona alguns debates que não tinham tido espaço até então. O pessoal do Homomento registrou no seu site o aumento das pesquisas relacionadas ao verbete “homofobia” quando Dicésar acusou pela primeira vez o seu colega de confinamento (Dourado) de homofóbico.
Os que se empolgaram com a participação dos homossexuais no programa tiveram uma grande decepção quando viram Marcelo Dourado comemorando a vitória do jogo. Mas o jogo é importante pra quem? Ao meu ver, a participação de Dimmy, Serginho e Angélica promoveu uma discussão muito importante e fez com que o público pudesse ver aqueles homossexuais como pessoas comuns, não como aberrações nem como estrelas. O desabafo de Dicésar nos permite realizar outras discussões. Até quando vamos continuar comemorando o “orgulho gay” enquanto as pessoas, especialmente os mais pobres (homossexuais trabalhadores, michês e travestis), sofrem com os dilemas existenciais, com a violência e com a cooptação dos movimentos pelos interesses do capital?
Os que achavam que Angélica, Dimmy e Serginho não eram representantes dos homossexuais na televisão talvez tivessem razão. Mas quem disse que precisamos de representantes? Precisamos, isso sim, de promover um debate e pensar mais profundamente sobre nossa condição para poder transformá-la. Pessoalmente, eu acredito que a participação dessa gente naquele programa nos ajudou a criar alguma reflexão. Era só o que eu esperava deles. E, agora, eu espero que possamos usar dos elementos que nos deram para construirmos de forma mais madura e com seriedade um movimento que verdadeiramente represente os anseios da maioria dos homossexuais desse país e do mundo.
RT @danidutafalando: Parabéns ao @pstu por ser o único partido a defender em rede nacional a luta contra a opressão ao negro, à mulher e ..._carlinhos_7 hours ago