Ele sempre quis ser tocado. A primeira vez, quando um menino muito amado que o amava também o acariciou, sentiu algo que o fez querer dizer ao mundo todo o que sentia. Foi o que fez. Apanhou, até. Dali pra frente não teve mais um menino que fosse muito amado que o amasse também, mas não desistiu. Ia para todas as baladas e procurava quem o tocasse com carinho. Era estranho. Uma vez percebeu que os lugares onde era tocado com carinho ficavam marcados com uma cor mais forte que a de sua pele. Quando saiu da boate, todos apontavam para ele dando risadas maliciosas.
Resolveu que, sempre que saísse procurando carinho, iria cobrir-se. Pedia para não lhe tocarem o rosto, o que era quase impossível. Calça comprida, blusa cacharrel e capuz eram sua armadura. Saía da balada e estava todo marcado. Havia uma mancha de cor forte em cada lugar onde lhe haviam encostado a mão de forma carinhosa. Então cobria-se com todas aquelas roupas, mesmo em dia de calor, para poder entrar no ônibus sem sofrer violência.
Um dia sua mãe perguntou porque sua pele estava toda marcada e ele respondeu que era alergia. Não sabia o que fazer. Não tinha visto aquilo acontecer com nenhuma outra pessoa. Cada vez menos procurava baladas, mas a vontade de ser tocado permanecia. Queria um menino que fosse muito amado e o amasse também, talvez isso parasse de acontecer. Mas não encontrava mais um menino assim. Acreditava que era uma espécie de maldição, coisa do tipo. Contou para uma amiga que não acreditou na história. Contou para outra amiga que quis fazer uma experiência: tocar nele, de forma carinhosa, para testar se as manchas apareceriam. Ele hesitou, num primeiro momento, mas consentiu num segundo. As manchas não apareceram.
Ele ficou assustado. Voltou a pensar naquelas histórias que lhe contavam quando ia à igreja: demônios, castigos, inferno, coisa e tal. Estava amaldiçoado, mesmo, só podia ser isso. Qual outra explicação? Tornou-se silencioso. Não dizia mais nenhuma palavra. Não ria, não chorava, só ficava quieto. Achou que deveria pôr um fim naquilo. Pensou em três opções: morrer, casar-se com uma moça formosa ou encontrar um menino que fosse muito amado e o amasse também.
Já se passaram alguns anos, depois disso. Ele não encontrou, ainda, um menino que fosse muito amado e o amasse também. Encontrei-o numa balada na madrugada de ontem. Beijamo-nos e nos acariciamos um ao outro. Onde ele me encostou de forma carinhosa surgiram algumas manchas estranhas, mais escuras que a cor da minha pele.
