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TOLICES

22 ago

São tolices que penso sobre você. Você não pensa em mim por que andamos na mesma rua? Vivo sonhando, imaginando você. Imagino pegadas e as vou seguindo (Edgard Scandurra)

Minha tia chegou em casa e perguntou se eu estava namorando. Quer saber quando é que eu vou casar, afinal, meus primos todos já estão grávidos. Como pode um menino tão fofo ainda não ter namorada? Já está na idade, já. Esses jovens de hoje, viu? Ela perguntou se eu não ia cortar o cabelo. Eu disse: “não, tia, não vou”. Não quero casar com menina nenhuma, vontade de mandar pro inferno. Esse papo de casamento, esse papo de gravidez. Esse papo.

Lembro-me daquela vez que escrevi uma cartinha de amor pra Gisele. Todo mundo escrevia cartinha de amor pra Gisele, menos eu, então tive que escrever uma. Ficou linda. Mas depois nunca mais eu consegui olhar pra cara da Gi. Tive vergonha. Passou um tempo, conheci a Manu. E contei pra todo mundo que eu estava namorando a Manoela. Mas eu ainda não tinha contado isso pra ela, coitada, nem sabia que namorava comigo. Era linda, a Manu. Não sei se ela soube que um dia já foi minha namorada.

Eu era um tanto confuso. Ora insistia em dar flores para as meninas da escola, ora tinha medo delas (elas eram sensíveis demais e pareciam saber mais de mim que eu mesmo). Gostava de ouvir Legião e Pato Fu, não jogava futebol. Não era fácil entender muito bem o que se passava. Alguma coisa me dizia que eu era uma aberração pecaminosa e doente. Não entendia muito bem de onde vinha aquela voz na minha mente: “VOCÊ NÃO PODE, VOCÊ NÃO PODE”. Não posso o quê?

Na adolescência é sempre difícil entregar aquele bilhetinho de amor. A aproximação para o primeiro beijo não acontece sem muita tensão, ansiedade e nervosismo. A primeira relação sexual é um desastre: onde, quando, como? A insistência em realizar essas experiências no mesmo tempo de meus amigos me ajudou a entender o que se passava aqui dentro. E a partir daí as coisas começaram a ficar ainda mais difíceis. Todos os meus amigos tinham dificuldade em entregar o bilhetinho para a pessoa amada. Eu tinha mais dificuldade ainda. Porque o bilhete deles era normal. O meu era torto. O primeiro beijo do Tiago com a Ruth foi cheio de mistério, ele ficou um dia sem comer. Disse que seu coração batia acelerado. O meu primeiro beijo nunca acontecia. Tentei com Vanessa, com Michele e com Pâmela. Meu coração, como o de Tiago, também batia acelerado, mas o beijo não aconteceu. Sexo? O que era isso, mesmo?

O gigantesco SUPEREGO (que alguns chamam Deus, outros chamam consciência e um povo aí resolveu nomear homofobia internalizada) nos impede de entender aqueles sentimentos totalmente fora da norma que vêm a tona no tempo mais controverso da vida. Comecei a perceber que aqueles sentimentos que meus amigos tinham pelas meninas eu tinha por alguns deles. Meu coração acelerava quando eu ia falar com o Tiago. Meu pênis ficava ereto diante do Wellington. Coração bobo, pinto levado. Estava tudo errado.

Demorou muito para que eu pudesse entender as ideologias que constroem os padrões para o que será considerado certo ou errado. Para ninguém amar era proibido. Por que para mim seria? Talvez porque fosse perigoso, afinal eu era uma aberração. Mais adiante descobri que existem lugares para que as aberrações possam se encontrar sem medo. Os guetos, verdadeiros campos de refugiados (caríssimos) onde as pessoas podem se mostrar como são. Ali uma aberração entende a outra. E mesmo ali o grande SUPEREGO nos acompanha. É preciso beber um pouco pra começar a ter coragem. É preciso beber mais um pouco pra ir pra pista de dança e mais um pouco pra conseguir tocar na outra aberração. Acontece o flerte fatal e, no final, em meio a um estranho constrangimento, cada aberração pega o seu barco e volta pro ninho.

Dizem por aí que o SUPEREGO é a parte do juízo solúvel em álcool. E o álcool, por sua vez, é uma espécie de suco de frutas Gummi, ou aquele espinafre do marinheiro Popeye. A bebida alcoólica (dentre outras drogas) é um instrumento muito utilizado pelos homossexuais seres humanos para poderem se livrar da culpa, do medo ou da vergonha. E isso pode gerar problemas como: “nossa, como era mesmo o rosto daquela pessoa que eu beijei ontem?” ou “ai, esqueci de pôr a camisinha”, quando não causa dependência. Muitas aberrações só se mostram aberrações na balada. Durante o dia permanecem disfarçadas, como um mutante com medo de ter os seus poderes descobertos. E isso impede, por exemplo, a construção de relações mais profundas. O amor acontece por uma noite apenas, já que ninguém pode descobrir quem eu sou.

É verdade que do lado de fora as coisas não são tão fáceis assim. Dar a cara a tapa é uma atitude de muita coragem e estar fora do armário traz consequências definitivas para a vida dos homossexuais (às vezes consequências bastante dolorosas, outras vezes agradáveis, mas sempre marcantes). O maior benefício de ser uma aberração assumida é o fato de poder lutar por direitos e tomar partido na construção de uma sociedade diferente. Não é possível para os homossexuais seres humanos encontrar a felicidade na sociedade em que vivemos hoje, especialmente para os mais pobres. As revoluções que proclamavam liberdade, igualdade e fraternidade limitaram-se a melhorar a vida de uns poucos. Cadê a minha fatia do filé?

Já é hora de nos libertarmos de todas as correntes que nos impedem de sermos nós mesmos. Tem gente que acredita no fim do mundo, mas não acha que é possível transformar essa sociedade machista, racista e homofóbica. Eu acredito que é possível e, para me livrar do gigante SUPEREGO, tornei-me militante e estou disposto a enfrentar o que for necessário, como um verdadeiro guerreiro, para que haja um mundo novo em que eu não precise disfarçar o meu rebolado. Usarei meus poderes de aberração mutante para acabar com a exploração que nos extorque toda a riqueza que produzimos e para construir o socialismo – que acredito ser a única forma de, hoje, darmos um basta ao que nos impede de sermos felizes. Pós modernos que me desculpem, mas estou com Malcom X e não abro: Não há capitalismo sem homofobia.

O AMOR ALIENADO

29 dez

Segundo a perspectiva marxiana, os sentidos humanos não são plenos num mundo em que o homem se vê impedido de desenvolver potencialidades pelo fato de terem-lhe arrancado características suas. A alienação do produto do trabalho, a alienação do próprio trabalho e a alienação de seu gênero (humanidade) faz com que o homem não consiga encontrar sua plenitude e a felicidade se limita a ser realizada em curtos períodos de tempo, especialmente naqueles que mais se assemelham com as características animais (comer, beber, dormir, procriar). Assim, o homem sente-se humanamente livre e feliz em atividades que realiza quando termina a sua jornada de trabalho: é no seu horário de folga que começa a vida à mesa, no boteco, na cama.

Marx, em O Capital, diz que a alienação faz com que produtos do cérebro humano pareçam dotados de vida própria, entidades autônomas que mantém relações entre si e com os homens. É assim no mundo religioso, quando o homem mesmo cria divindades, anjos ou demônios e lhes dá vida própria; assim é no mundo do trabalho, quando a mercadoria produzida pelo homem ganha características extraordinárias e parece seguir uma lógica que não depende das relações humanas. Segundo análise nossa, isso também se dá no âmbito do afeto.

Podemos entender aqui o amor como um sentido humano prático ou espiritual, como bem define Marx nos Manuscritos Econômico-Filosóficos. Tanto os cinco sentidos (olfato, audição, tato, paladar, visão) como os sentidos espirituais (desejo, amor, etc) não são, no homem, sentidos brutos como nos animais. São sentidos carregados de humanidade, já que o homem não percebe a natureza como os animais. A natureza é a base da experiência humana e é um laço do homem com os outros homens. A existência natural do homem tornou-se sua existência humana e a própria natureza tornou-se humana para ele. Quando o homem transforma a natureza ele próprio se objetifica nela, torna a natureza humanizada. Para Marx, é evidente que o olho humano aprecia as coisas de maneira diferente do olho bruto, não-humano, assim como o ouvido humano diferentemente do ouvido bruto[1]. Quando não se reconhece no objeto criado (natureza humanizada) o homem não desenvolve toda a potencialidade de seus sentidos, bloqueia-os e, assim, o homem torna-se cada vez mais pobre como homem, cada vez mais próximo da animalidade.

Além de não conseguir desenvolver a potencialidade humana de seus sentidos, o homem também sofre a partir das mutilações criadas pela alienação. O amor, como sentido humano prático, espiritual, pode ganhar vida própria e ser hostil quando separado daquele que o gerou. Amor é construção humana, pressupõe conhecimento, exercício, esforço, parceria. Segundo Erich Fromm, o amor deve ser aprendido e envolve domínios que devem estar interpenetrados: o da teoria e o da prática[2]. O amor é relação humana social, é construção. Quando alienado, torna-se uma força estranha, dotada de vida própria, pode ser hostil e causar sofrimento.

Isso pode se dar devido a diversos fatores, mas podemos relacionar a alienação à ideologia do amor romântico. O afeto é sentimento que pressupõe relação humana. É uma construção que envolve, pelo menos, dois sujeitos. O mito do amor romântico, no entanto, abarca um conjunto de fatores psicológicos (ideais, crenças e expectativas) que faz com que ele deixe de ser apenas mais uma forma de afeição.  Ele é uma ideologia burguesa que surgiu pela necessidade de se manter a família como instituição mesmo que já não haja o casamento comprado. Hoje ainda é importante para o capitalismo que a sociedade se organize em núcleos com papai, mamãe e filhinhos. Para o capitalista, deve haver a certeza de que poderá transmitir a sua herança para os filhos e mantê-la em seu nome. Engels diz que as designações “pai” e “filho” não são simples títulos honoríficos, mas, ao contrário, implicam em sérios deveres recíprocos, perfeitamente definidos, cujo conjunto forma uma parte essencial do regime social de alguns povos[3]. Para a manutenção da riqueza acumulada, a família monogâmica se torna uma necessidade, assim, sustenta-se a ideologia do amor romântico. Segundo Regina Navarro, ele não é construído na relação com uma pessoa real, e sim sobre a idealização que se faz dela. Prega crenças como: quem ama não sente tesão por mais ninguém e todos devem encontrar um dia a “pessoa certa” [4].

O amor alienado é aquilo que pode ser chamado de paixão, um sentimento humano que ganha vida própria e se destaca, tornando-se estranho, hostil. Traz a impressão de ter vindo de fora, de não ter sido construído pelo sujeito. Isso não quer dizer que ele não é verdadeiro. É produto humano separado dele, mas é produto humano, ainda. Sendo real, pode causar dor e sofrimento, como o medo que as crianças sentem dos fantasmas que elas mesmas criam. O amor idealizado é frustrante, gera crise e depressão. Como pode um sentimento tão humano fazer sofrer? Quando se desgruda de quem o criou, o amor torna-se irreconhecível e ganha super-poderes. A expectativa criada diante da idealização de um personagem é quebrada a cada nova experiência material e a realidade concreta fere aquela imagem que o amor romântico deu ao sujeito apaixonado.

Como um condicionamento cultural, uma ideologia, o amor romântico não pode ser tido como forma de relacionamento humano natural, já que, como vimos, tem outras intenções (a transmissão da riqueza acumulada). O amor verdadeiro de um sujeito pelo outro é algo sem segundas intenções. Numa relação entre duas ou mais pessoas o amor deveria sempre ser incondicional, despretensioso e, assim, agradável, porque é sentido humano prático e, assim como os outros sentidos, é instrumento de percepção do mundo. No entanto, a maneira como mundo se organiza hoje impede a sua realização plena. A ideologia do amor eterno e da pessoa ideal ainda é muito forte e só será superada com a transformação da realidade material para que o homem possa sentir-se humanamente livre e feliz.

 


[1] MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2005. p. 142 e 143.

[2] FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

[3] ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do estado. São Paulo: Expressão Popular, 2010. p 46.

[4] NAVARRO, Regina. In: O Dia 25/10/2009

NÃO EXISTE CAPITALISMO SEM HOMOFOBIA

2 set

A frase do PSTU que apareceu na propaganda eleitoral em horário nobre na televisão (não foi novela nem BBB quem mostrou o primeiro beijo gay em rede nacional) deixou algumas pessoas com um ponto de interrogação. Afinal de contas, o que é que a homofobia tem a ver com o capitalismo?

Para responder a essa pergunta, acessamos aos livros de história para estudar as comunidades primitivas (aquelas que viviam sem o domínio de um Estado porque ainda não existia a propriedade privada). Segundo o sociólogo Pierre Clastres, as sociedades primitivas não tinham a necessidade de um aparelho estatal porque não haviam riquezas acumuladas para serem vigiadas. O Estado, na visão de John Locke, é aquele acordo feito pelas pessoas para que não briguem na hora de proteger as suas riquezas. Dessa forma, podemos entender que o parlamento, a justiça e a polícia, por exemplo, são braços do Estado decididos a manter o direito à propriedade que, segundo Locke, é natural aos seres humanos.

Antes da propriedade privada aparecer, portanto, não havia a necessidade do Estado. As sociedade primitivas eram estreitamente igualitárias e o lar era o centro da vida comum. Todos eram senhores de sua própria atividade (ninguém trabalhava para enriquecer a outrem) e o fruto do seu esforço era o suficiente para suprir as necessidades do grupo.

Também não existia isso o que hoje entendemos por família. Os descendentes de sangue eram identificados através da mulher, não havia a concepção de paternidade. A mulher morava com seus irmãos e cuidava dos filhos juntos deles. Os pais eram apenas visitantes. Os homens viviam com a mãe e seus irmãos, cuidando dos filhos das irmãs¹.

Pierre Clastres escreve:

As sociedades primitivas dispõem de todo o tempo necessário para a aumentar a produção dos bens materiais. O bom senso questiona: por que razão os homens dessas sociedades quereriam trabalhar e produzir e mais, quando três ou quatro horas diárias de atividade são suficientes para garantir as necessidades do grupo? De que lhes serviria isso? Qual seria a utilidade dos excedentes assim acumulados?²

Essas perguntas dificilmente encontrarão uma resposta ética. E isso tem a ver com a fundação da família assim como a do Estado. Quando alguns “espertinhos” perceberam que com o crescimento tecnológico se conseguiria produzir riquezas acima das necessidades básicas, inventaram-se novas formas de organização social baseadas em classes, já que para alguém desfrutar do conforto dos excedentes, alguém deveria produzi-los. E a partir do momento em que se conseguiu acumular riquezas, foi necessário pensar em maneiras de mantê-la e protegê-la.

Antes, a riqueza do homem passava às suas irmãs, com quem ele morava. Com a chegada do capitalismo (o acúmulo de riquezas) surgiu o casamento comprado: da mesma forma que um homem comprava uma terra e a botava em seu nome, então ele deveria comprar (dote) uma mulher que carregasse também o seu nome. Assim, seus filhos poderiam continuar o seu acúmulo por meio da herança que receberiam.

Foi assim que surgiu o machismo (a mulher precisa ser monogâmica para que o homem tenha certeza da paternidade de seus filhos) e a homofobia (um homem gay não iria levar adiante a estrutura da família para perpetuar a riqueza acumulada).

As sociedades primitivas não só consideravam normais as relações homossexuais como também a valorizavam. Entre os Papua, os Keraki e os Kiwai (Nova Guiné), por exemplo, atos sexuais entre pessoas mais velhas e jovens do mesmo sexo faziam parte do ritual de passagem à vida adulta. Em tribos da América do Norte os Berdaches (travestis) tinham status especial: eram pessoas altamente respeitadas com um papel sexual-ritual nas cerimônias religiosas, já que sua alma era composta tanto pelo feminino como pelo masculino³.

Clastres diz que o homem só trabalha para além das suas necessidades se for forçado. O Estado é essa força (que não estava presente nas sociedades primitivas). Da mesma forma, podemos entender que o machismo e a homofobia são construções culturais, de defesa da família, para preservar o acúmulo de riquezas e manter a propriedade privada.

Depois dessa análise histórica não é mais tão difícil entender porque o PSTU levou a frase “Não há capitalismo sem homofobia” para o horário nobre da televisão brasileira, não é mesmo?

Veja o vídeo

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Notas:

1. OKITA, Hiro. Homossexualidade: da opressão à libertação. São Paulo: Editora Sundermann, 2007.

2. CLASTRES, Pierra. A Sociedade Contra O Estado. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978. página 137.

3. OKITA, Hiro. Homossexualidade: da opressão à libertação. São Paulo: Editora Sundermann, 2007.

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