Segundo a perspectiva marxiana, os sentidos humanos não são plenos num mundo em que o homem se vê impedido de desenvolver potencialidades pelo fato de terem-lhe arrancado características suas. A alienação do produto do trabalho, a alienação do próprio trabalho e a alienação de seu gênero (humanidade) faz com que o homem não consiga encontrar sua plenitude e a felicidade se limita a ser realizada em curtos períodos de tempo, especialmente naqueles que mais se assemelham com as características animais (comer, beber, dormir, procriar). Assim, o homem sente-se humanamente livre e feliz em atividades que realiza quando termina a sua jornada de trabalho: é no seu horário de folga que começa a vida à mesa, no boteco, na cama.

Marx, em O Capital, diz que a alienação faz com que produtos do cérebro humano pareçam dotados de vida própria, entidades autônomas que mantém relações entre si e com os homens. É assim no mundo religioso, quando o homem mesmo cria divindades, anjos ou demônios e lhes dá vida própria; assim é no mundo do trabalho, quando a mercadoria produzida pelo homem ganha características extraordinárias e parece seguir uma lógica que não depende das relações humanas. Segundo análise nossa, isso também se dá no âmbito do afeto.
Podemos entender aqui o amor como um sentido humano prático ou espiritual, como bem define Marx nos Manuscritos Econômico-Filosóficos. Tanto os cinco sentidos (olfato, audição, tato, paladar, visão) como os sentidos espirituais (desejo, amor, etc) não são, no homem, sentidos brutos como nos animais. São sentidos carregados de humanidade, já que o homem não percebe a natureza como os animais. A natureza é a base da experiência humana e é um laço do homem com os outros homens. A existência natural do homem tornou-se sua existência humana e a própria natureza tornou-se humana para ele. Quando o homem transforma a natureza ele próprio se objetifica nela, torna a natureza humanizada. Para Marx, é evidente que o olho humano aprecia as coisas de maneira diferente do olho bruto, não-humano, assim como o ouvido humano diferentemente do ouvido bruto[1]. Quando não se reconhece no objeto criado (natureza humanizada) o homem não desenvolve toda a potencialidade de seus sentidos, bloqueia-os e, assim, o homem torna-se cada vez mais pobre como homem, cada vez mais próximo da animalidade.

Além de não conseguir desenvolver a potencialidade humana de seus sentidos, o homem também sofre a partir das mutilações criadas pela alienação. O amor, como sentido humano prático, espiritual, pode ganhar vida própria e ser hostil quando separado daquele que o gerou. Amor é construção humana, pressupõe conhecimento, exercício, esforço, parceria. Segundo Erich Fromm, o amor deve ser aprendido e envolve domínios que devem estar interpenetrados: o da teoria e o da prática[2]. O amor é relação humana social, é construção. Quando alienado, torna-se uma força estranha, dotada de vida própria, pode ser hostil e causar sofrimento.
Isso pode se dar devido a diversos fatores, mas podemos relacionar a alienação à ideologia do amor romântico. O afeto é sentimento que pressupõe relação humana. É uma construção que envolve, pelo menos, dois sujeitos. O mito do amor romântico, no entanto, abarca um conjunto de fatores psicológicos (ideais, crenças e expectativas) que faz com que ele deixe de ser apenas mais uma forma de afeição. Ele é uma ideologia burguesa que surgiu pela necessidade de se manter a família como instituição mesmo que já não haja o casamento comprado. Hoje ainda é importante para o capitalismo que a sociedade se organize em núcleos com papai, mamãe e filhinhos. Para o capitalista, deve haver a certeza de que poderá transmitir a sua herança para os filhos e mantê-la em seu nome. Engels diz que as designações “pai” e “filho” não são simples títulos honoríficos, mas, ao contrário, implicam em sérios deveres recíprocos, perfeitamente definidos, cujo conjunto forma uma parte essencial do regime social de alguns povos[3]. Para a manutenção da riqueza acumulada, a família monogâmica se torna uma necessidade, assim, sustenta-se a ideologia do amor romântico. Segundo Regina Navarro, ele não é construído na relação com uma pessoa real, e sim sobre a idealização que se faz dela. Prega crenças como: quem ama não sente tesão por mais ninguém e todos devem encontrar um dia a “pessoa certa” [4].
O amor alienado é aquilo que pode ser chamado de paixão, um sentimento humano que ganha vida própria e se destaca, tornando-se estranho, hostil. Traz a impressão de ter vindo de fora, de não ter sido construído pelo sujeito. Isso não quer dizer que ele não é verdadeiro. É produto humano separado dele, mas é produto humano, ainda. Sendo real, pode causar dor e sofrimento, como o medo que as crianças sentem dos fantasmas que elas mesmas criam. O amor idealizado é frustrante, gera crise e depressão. Como pode um sentimento tão humano fazer sofrer? Quando se desgruda de quem o criou, o amor torna-se irreconhecível e ganha super-poderes. A expectativa criada diante da idealização de um personagem é quebrada a cada nova experiência material e a realidade concreta fere aquela imagem que o amor romântico deu ao sujeito apaixonado.
Como um condicionamento cultural, uma ideologia, o amor romântico não pode ser tido como forma de relacionamento humano natural, já que, como vimos, tem outras intenções (a transmissão da riqueza acumulada). O amor verdadeiro de um sujeito pelo outro é algo sem segundas intenções. Numa relação entre duas ou mais pessoas o amor deveria sempre ser incondicional, despretensioso e, assim, agradável, porque é sentido humano prático e, assim como os outros sentidos, é instrumento de percepção do mundo. No entanto, a maneira como mundo se organiza hoje impede a sua realização plena. A ideologia do amor eterno e da pessoa ideal ainda é muito forte e só será superada com a transformação da realidade material para que o homem possa sentir-se humanamente livre e feliz.
[1] MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2005. p. 142 e 143.
[2] FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
[3] ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do estado. São Paulo: Expressão Popular, 2010. p 46.
[4] NAVARRO, Regina. In: O Dia 25/10/2009




