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O AMOR ALIENADO

29 dez

Segundo a perspectiva marxiana, os sentidos humanos não são plenos num mundo em que o homem se vê impedido de desenvolver potencialidades pelo fato de terem-lhe arrancado características suas. A alienação do produto do trabalho, a alienação do próprio trabalho e a alienação de seu gênero (humanidade) faz com que o homem não consiga encontrar sua plenitude e a felicidade se limita a ser realizada em curtos períodos de tempo, especialmente naqueles que mais se assemelham com as características animais (comer, beber, dormir, procriar). Assim, o homem sente-se humanamente livre e feliz em atividades que realiza quando termina a sua jornada de trabalho: é no seu horário de folga que começa a vida à mesa, no boteco, na cama.

Marx, em O Capital, diz que a alienação faz com que produtos do cérebro humano pareçam dotados de vida própria, entidades autônomas que mantém relações entre si e com os homens. É assim no mundo religioso, quando o homem mesmo cria divindades, anjos ou demônios e lhes dá vida própria; assim é no mundo do trabalho, quando a mercadoria produzida pelo homem ganha características extraordinárias e parece seguir uma lógica que não depende das relações humanas. Segundo análise nossa, isso também se dá no âmbito do afeto.

Podemos entender aqui o amor como um sentido humano prático ou espiritual, como bem define Marx nos Manuscritos Econômico-Filosóficos. Tanto os cinco sentidos (olfato, audição, tato, paladar, visão) como os sentidos espirituais (desejo, amor, etc) não são, no homem, sentidos brutos como nos animais. São sentidos carregados de humanidade, já que o homem não percebe a natureza como os animais. A natureza é a base da experiência humana e é um laço do homem com os outros homens. A existência natural do homem tornou-se sua existência humana e a própria natureza tornou-se humana para ele. Quando o homem transforma a natureza ele próprio se objetifica nela, torna a natureza humanizada. Para Marx, é evidente que o olho humano aprecia as coisas de maneira diferente do olho bruto, não-humano, assim como o ouvido humano diferentemente do ouvido bruto[1]. Quando não se reconhece no objeto criado (natureza humanizada) o homem não desenvolve toda a potencialidade de seus sentidos, bloqueia-os e, assim, o homem torna-se cada vez mais pobre como homem, cada vez mais próximo da animalidade.

Além de não conseguir desenvolver a potencialidade humana de seus sentidos, o homem também sofre a partir das mutilações criadas pela alienação. O amor, como sentido humano prático, espiritual, pode ganhar vida própria e ser hostil quando separado daquele que o gerou. Amor é construção humana, pressupõe conhecimento, exercício, esforço, parceria. Segundo Erich Fromm, o amor deve ser aprendido e envolve domínios que devem estar interpenetrados: o da teoria e o da prática[2]. O amor é relação humana social, é construção. Quando alienado, torna-se uma força estranha, dotada de vida própria, pode ser hostil e causar sofrimento.

Isso pode se dar devido a diversos fatores, mas podemos relacionar a alienação à ideologia do amor romântico. O afeto é sentimento que pressupõe relação humana. É uma construção que envolve, pelo menos, dois sujeitos. O mito do amor romântico, no entanto, abarca um conjunto de fatores psicológicos (ideais, crenças e expectativas) que faz com que ele deixe de ser apenas mais uma forma de afeição.  Ele é uma ideologia burguesa que surgiu pela necessidade de se manter a família como instituição mesmo que já não haja o casamento comprado. Hoje ainda é importante para o capitalismo que a sociedade se organize em núcleos com papai, mamãe e filhinhos. Para o capitalista, deve haver a certeza de que poderá transmitir a sua herança para os filhos e mantê-la em seu nome. Engels diz que as designações “pai” e “filho” não são simples títulos honoríficos, mas, ao contrário, implicam em sérios deveres recíprocos, perfeitamente definidos, cujo conjunto forma uma parte essencial do regime social de alguns povos[3]. Para a manutenção da riqueza acumulada, a família monogâmica se torna uma necessidade, assim, sustenta-se a ideologia do amor romântico. Segundo Regina Navarro, ele não é construído na relação com uma pessoa real, e sim sobre a idealização que se faz dela. Prega crenças como: quem ama não sente tesão por mais ninguém e todos devem encontrar um dia a “pessoa certa” [4].

O amor alienado é aquilo que pode ser chamado de paixão, um sentimento humano que ganha vida própria e se destaca, tornando-se estranho, hostil. Traz a impressão de ter vindo de fora, de não ter sido construído pelo sujeito. Isso não quer dizer que ele não é verdadeiro. É produto humano separado dele, mas é produto humano, ainda. Sendo real, pode causar dor e sofrimento, como o medo que as crianças sentem dos fantasmas que elas mesmas criam. O amor idealizado é frustrante, gera crise e depressão. Como pode um sentimento tão humano fazer sofrer? Quando se desgruda de quem o criou, o amor torna-se irreconhecível e ganha super-poderes. A expectativa criada diante da idealização de um personagem é quebrada a cada nova experiência material e a realidade concreta fere aquela imagem que o amor romântico deu ao sujeito apaixonado.

Como um condicionamento cultural, uma ideologia, o amor romântico não pode ser tido como forma de relacionamento humano natural, já que, como vimos, tem outras intenções (a transmissão da riqueza acumulada). O amor verdadeiro de um sujeito pelo outro é algo sem segundas intenções. Numa relação entre duas ou mais pessoas o amor deveria sempre ser incondicional, despretensioso e, assim, agradável, porque é sentido humano prático e, assim como os outros sentidos, é instrumento de percepção do mundo. No entanto, a maneira como mundo se organiza hoje impede a sua realização plena. A ideologia do amor eterno e da pessoa ideal ainda é muito forte e só será superada com a transformação da realidade material para que o homem possa sentir-se humanamente livre e feliz.

 


[1] MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2005. p. 142 e 143.

[2] FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

[3] ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do estado. São Paulo: Expressão Popular, 2010. p 46.

[4] NAVARRO, Regina. In: O Dia 25/10/2009

NÃO EXISTE CAPITALISMO SEM HOMOFOBIA

2 set

A frase do PSTU que apareceu na propaganda eleitoral em horário nobre na televisão (não foi novela nem BBB quem mostrou o primeiro beijo gay em rede nacional) deixou algumas pessoas com um ponto de interrogação. Afinal de contas, o que é que a homofobia tem a ver com o capitalismo?

Para responder a essa pergunta, acessamos aos livros de história para estudar as comunidades primitivas (aquelas que viviam sem o domínio de um Estado porque ainda não existia a propriedade privada). Segundo o sociólogo Pierre Clastres, as sociedades primitivas não tinham a necessidade de um aparelho estatal porque não haviam riquezas acumuladas para serem vigiadas. O Estado, na visão de John Locke, é aquele acordo feito pelas pessoas para que não briguem na hora de proteger as suas riquezas. Dessa forma, podemos entender que o parlamento, a justiça e a polícia, por exemplo, são braços do Estado decididos a manter o direito à propriedade que, segundo Locke, é natural aos seres humanos.

Antes da propriedade privada aparecer, portanto, não havia a necessidade do Estado. As sociedade primitivas eram estreitamente igualitárias e o lar era o centro da vida comum. Todos eram senhores de sua própria atividade (ninguém trabalhava para enriquecer a outrem) e o fruto do seu esforço era o suficiente para suprir as necessidades do grupo.

Também não existia isso o que hoje entendemos por família. Os descendentes de sangue eram identificados através da mulher, não havia a concepção de paternidade. A mulher morava com seus irmãos e cuidava dos filhos juntos deles. Os pais eram apenas visitantes. Os homens viviam com a mãe e seus irmãos, cuidando dos filhos das irmãs¹.

Pierre Clastres escreve:

As sociedades primitivas dispõem de todo o tempo necessário para a aumentar a produção dos bens materiais. O bom senso questiona: por que razão os homens dessas sociedades quereriam trabalhar e produzir e mais, quando três ou quatro horas diárias de atividade são suficientes para garantir as necessidades do grupo? De que lhes serviria isso? Qual seria a utilidade dos excedentes assim acumulados?²

Essas perguntas dificilmente encontrarão uma resposta ética. E isso tem a ver com a fundação da família assim como a do Estado. Quando alguns “espertinhos” perceberam que com o crescimento tecnológico se conseguiria produzir riquezas acima das necessidades básicas, inventaram-se novas formas de organização social baseadas em classes, já que para alguém desfrutar do conforto dos excedentes, alguém deveria produzi-los. E a partir do momento em que se conseguiu acumular riquezas, foi necessário pensar em maneiras de mantê-la e protegê-la.

Antes, a riqueza do homem passava às suas irmãs, com quem ele morava. Com a chegada do capitalismo (o acúmulo de riquezas) surgiu o casamento comprado: da mesma forma que um homem comprava uma terra e a botava em seu nome, então ele deveria comprar (dote) uma mulher que carregasse também o seu nome. Assim, seus filhos poderiam continuar o seu acúmulo por meio da herança que receberiam.

Foi assim que surgiu o machismo (a mulher precisa ser monogâmica para que o homem tenha certeza da paternidade de seus filhos) e a homofobia (um homem gay não iria levar adiante a estrutura da família para perpetuar a riqueza acumulada).

As sociedades primitivas não só consideravam normais as relações homossexuais como também a valorizavam. Entre os Papua, os Keraki e os Kiwai (Nova Guiné), por exemplo, atos sexuais entre pessoas mais velhas e jovens do mesmo sexo faziam parte do ritual de passagem à vida adulta. Em tribos da América do Norte os Berdaches (travestis) tinham status especial: eram pessoas altamente respeitadas com um papel sexual-ritual nas cerimônias religiosas, já que sua alma era composta tanto pelo feminino como pelo masculino³.

Clastres diz que o homem só trabalha para além das suas necessidades se for forçado. O Estado é essa força (que não estava presente nas sociedades primitivas). Da mesma forma, podemos entender que o machismo e a homofobia são construções culturais, de defesa da família, para preservar o acúmulo de riquezas e manter a propriedade privada.

Depois dessa análise histórica não é mais tão difícil entender porque o PSTU levou a frase “Não há capitalismo sem homofobia” para o horário nobre da televisão brasileira, não é mesmo?

Veja o vídeo

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Notas:

1. OKITA, Hiro. Homossexualidade: da opressão à libertação. São Paulo: Editora Sundermann, 2007.

2. CLASTRES, Pierra. A Sociedade Contra O Estado. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978. página 137.

3. OKITA, Hiro. Homossexualidade: da opressão à libertação. São Paulo: Editora Sundermann, 2007.

SE EU PUDESSE ESCOLHER NÃO SER GAY, EU NÃO SERIA

15 jun

A participação de três homossexuais assumidos na décima edição do Big Brother Brasil causou uma grande discussão entre os militantes. Alguns comemoraram com entusiasmo a presença de Dimmy, Dr Orgastic e Angélica no programa da rede Globo. Outros protestaram tendo em vista que a participação no programa não garantiria visibilidade, já que os representantes não teriam capacidade de levar o debate sobre os direitos dos GLBTs à mídia. Alguns chegaram a argumentar que Sérgio e Dicésar, especialmente, contribuiriam para uma maior estereotipização, já que os dois eram demasiadamente afeminados (discurso que esconde consigo uma forte dose de homofobia).

Na primeira edição do BBB muita gente curiosa quis comparar o programa a uma experiência científica, como se os participantes fossem ratinhos de laboratório. A realidade, porém, mostrou que não era nada daquilo. Nada de ciência. Nada de filosofia. Imagem, apenas. Uma boa produção, roteiro e edição, como qualquer novela que se preze. Na décima edição os participantes foram divididos por tribos, uma mais questionável que a outra. A única tribo que parecia ter um significado era a dos coloridos (nome que “pegou” dentro do universo GLBT). A direção do programa (diga-se Boninho) foi enfática ao privilegiar a participação dos coloridos.

Quando Dicésar disse em uma conversa com a parceira Angélica que se pudesse escolher não ser gay, ele não seria, muita gente do movimento caiu em cima da diva das boates e paradas gay. Dimmy Kieer, com todo o seu brilho, não escondeu um dilema existencial que – não sejamos hipócritas – está presente na vida de grande parte dos homossexuais. É claro que é necessário fazer campanha pelo orgulho gay, no entanto, não é preciso esconder os dilemas que essa orientação traz para a vida do sujeito.

Essa semana saiu uma propaganda no site da Folha falando sobre o livro A Experiência Homossexual de Marina Castaneda (A Girafa). Sérgio Ripardo escreveu na resenha:

Nunca estamos preparados para sair do armário. Não sabemos o que dizer para amigos, parentes e colegas de trabalho. Tememos suas reações. Pagamos um preço alto por expor em praça pública nossa orientação sexual, ainda estigmatizada. O roteiro mais frequente desse rosário: alguns amigos fogem de você com medo de serem confundidos ou vistos como “metidos com gays”; as namoradas deles desconfiam de você, que passa a ser encarado como uma “ameaça”; dependendo do seu emprego, não espere entusiasmo, afinal, muitas empresas ainda consideram o assunto um tabu.

Subvertendo Freud

Na aula sobre machismo e homofobia que dei aos meus alunos, esta semana, eu tive que falar do Freud. Perguntei a um aluno da sala se ele gostava de bife de fígado, ao que ele respondeu: “não”. Então perguntei-lhe quando foi que ele decidiu não gostar de bife de fígado. Silêncio na sala. Aproveitei a brecha para explicar alguma coisa que eu sei sobre o Id: o campo dos desejos é impulso, é animal e é inconsciente, não faz parte daquelas coisas que a gente escolhe. Se o sujeito heterossexual está no ônibus lotado e pára em sua frente uma menina linda e cheirosa, ele não tem como segurar a ereção. A sala foi ao delírio quando eu disse isso, é claro, o que me proporcionou maior segurança para continuar o debate.

Expliquei à galera que o Superego também é inconsciente e é a parte da nossa personalidade responsável pela moral: aquelas regras básicas de convivência que são construídas ao longo de nossas vivências. Segundo Freud, o homem não seria capaz de viver em sociedade se não fosse regido por leis. Assim, o cara no ônibus logo pensaria: “putz, aqui eu não posso” e procuraria sublimar seu desejo. Essa reflexão é feita pelo Ego (parte consciente da nossa personalidade), contei eu à meninada.

Foi aí que chegamos ao ponto: e quando o menino que está no ônibus lotado, voltando do trabalho, fica excitado quando um rapaz bonito, forte e cheiroso pára em sua frente? O que ele vai pensar? A primeira coisa que vem à cabeça é um NÃO do tamanho do mundo. A mesma coisa diz a autora do referido livro em trecho que foi publicado na propaganda do site da Folha:

Com efeito, todas as crianças crescem com a idéia de que um dia vão se casar e formar família: é o que lhes repetem incansavelmente seus pais, a escola, a cultura e a sociedade em geral. Dar-se conta de que isso, provavelmente, não acontecerá, e que será necessário renunciar a um projeto de vida longamente preparado, é um processo extremamente lento e doloroso. Trata-se de uma perda importante e, como em qualquer perda, há um trabalho de luto a ser feito.

Assim, não fica difícil entender a honestidade contida no desabafo de Dicésar. Essa edição do BBB foi positiva, sob o meu ponto de vista, por ter trazido à tona alguns debates que não tinham tido espaço até então.  O pessoal do Homomento registrou no seu site o aumento das pesquisas relacionadas ao verbete “homofobia” quando Dicésar acusou pela primeira vez o seu colega de confinamento (Dourado) de homofóbico.

Os que se empolgaram com a participação dos homossexuais no programa tiveram uma grande decepção quando viram Marcelo Dourado comemorando a vitória do jogo. Mas o jogo é importante pra quem? Ao meu ver, a participação de Dimmy, Serginho e Angélica promoveu uma discussão muito importante e fez com que o público pudesse ver aqueles homossexuais como pessoas comuns, não como aberrações nem como estrelas. O desabafo de Dicésar nos permite realizar outras discussões. Até quando vamos continuar comemorando o “orgulho gay” enquanto as pessoas, especialmente os mais pobres (homossexuais trabalhadores, michês e travestis), sofrem com os dilemas existenciais, com a violência e com a cooptação dos movimentos pelos interesses do capital?

Os que achavam que Angélica, Dimmy e Serginho não eram representantes dos homossexuais na televisão talvez tivessem razão. Mas quem disse que precisamos de representantes? Precisamos, isso sim, de promover um debate e pensar mais profundamente sobre nossa condição para poder transformá-la. Pessoalmente, eu acredito que a participação dessa gente naquele programa nos ajudou a criar alguma reflexão. Era só o que eu esperava deles. E, agora, eu espero que possamos usar dos elementos que nos deram para construirmos de forma mais madura e com seriedade um movimento que verdadeiramente represente os anseios da maioria dos homossexuais desse país e do mundo.

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