Quer ver polêmica? Diga que uma cena de luta livre se parece com uma posição homoafetiva. Saia correndo, porque isso é perigoso. As pessoas não gostam de ser comparadas à homossexuais (como se ser homossexual fosse ruim). Uma vez postei a imagem abaixo no facebook e um amigo disse que isso prejudicava a imagem dos lutadores de jiu-jitsu (porque eles sofrem muito preconceito). Na época fiquei bastante assustado com a afirmação do meu amigo, hoje aprendi que precisamos mostrar às pessoas o que é a homofobia para que elas possam entender.
Por mais que as pessoas afirmem não ser homofóbicas (ou racistas, ou machistas), elas acabam por reproduzir a opressão em seu cotidiano sem nem mesmo perceber. Um tanto por não saber o que é a opressão, outro tanto por que a opressão é ideologia e a ideologia está impregnada nas músicas, nos filmes, novelas, comerciais, piadas, humorísticos, em mim e em você. Opa! Pode crer. Existem homossexuais homofóbicos da mesma maneira como negros racistas ou mulheres machistas. Lutar contra o racismo, o machismo e a homofobia, muitas vezes, é lutar contra algumas de nossas convicções mais enraizadas, contra nós mesmos.
Uma vez escrevi aqui um post em que eu subvertia um pouco o Freud. Falava sobre o local onde está a homofobia de cada um: o Superego, que carrega as proibições. Algumas regras da moral estão incrustadas em nossa mente e, de tão firmes, temos dificuldade em perceber que estão lá. Aí saímos por aí reproduzindo a opressão, rindo de piadas absurdas (ou contando elas aos amigos).
É importante aos gay friendly entender que “xingar” alguém de homossexual é achar que a homossexualidade é uma coisa ruim. Também é importante saber que sentir-se ofendido por ser chamado de homossexual ou comparado a um não-heterossexual também é perceber a homossexualidade como algo ruim, humilhante. E, devo dizer, isso é homofobia. Nós, os não-heterossexuais, sentimo-nos oprimidos quando alguém tem aversão à nossa imagem.
A coisa mais linda do mundo é ter amigos que permanecem ao seu lado sem ter medo de serem comparados a você. Se são chamados de “bicha!”, respondem: “e daí, e se eu fosse?” e continuam caminhando ao seu lado. Até porque, como cantam os Autoramas, “se o problema é ter que me afirmar, eu não tenho mais nada pra provar a ninguém”.
São tolices que penso sobre você. Você não pensa em mim por que andamos na mesma rua? Vivo sonhando, imaginando você. Imagino pegadas e as vou seguindo (Edgard Scandurra)
Minha tia chegou em casa e perguntou se eu estava namorando. Quer saber quando é que eu vou casar, afinal, meus primos todos já estão grávidos. Como pode um menino tão fofo ainda não ter namorada? Já está na idade, já. Esses jovens de hoje, viu? Ela perguntou se eu não ia cortar o cabelo. Eu disse: “não, tia, não vou”. Não quero casar com menina nenhuma, vontade de mandar pro inferno. Esse papo de casamento, esse papo de gravidez. Esse papo.
Lembro-me daquela vez que escrevi uma cartinha de amor pra Gisele. Todo mundo escrevia cartinha de amor pra Gisele, menos eu, então tive que escrever uma. Ficou linda. Mas depois nunca mais eu consegui olhar pra cara da Gi. Tive vergonha. Passou um tempo, conheci a Manu. E contei pra todo mundo que eu estava namorando a Manoela. Mas eu ainda não tinha contado isso pra ela, coitada, nem sabia que namorava comigo. Era linda, a Manu. Não sei se ela soube que um dia já foi minha namorada.
Eu era um tanto confuso. Ora insistia em dar flores para as meninas da escola, ora tinha medo delas (elas eram sensíveis demais e pareciam saber mais de mim que eu mesmo). Gostava de ouvir Legião e Pato Fu, não jogava futebol. Não era fácil entender muito bem o que se passava. Alguma coisa me dizia que eu era uma aberração pecaminosa e doente. Não entendia muito bem de onde vinha aquela voz na minha mente: “VOCÊ NÃO PODE, VOCÊ NÃO PODE”. Não posso o quê?
Na adolescência é sempre difícil entregar aquele bilhetinho de amor. A aproximação para o primeiro beijo não acontece sem muita tensão, ansiedade e nervosismo. A primeira relação sexual é um desastre: onde, quando, como? A insistência em realizar essas experiências no mesmo tempo de meus amigos me ajudou a entender o que se passava aqui dentro. E a partir daí as coisas começaram a ficar ainda mais difíceis. Todos os meus amigos tinham dificuldade em entregar o bilhetinho para a pessoa amada. Eu tinha mais dificuldade ainda. Porque o bilhete deles era normal. O meu era torto. O primeiro beijo do Tiago com a Ruth foi cheio de mistério, ele ficou um dia sem comer. Disse que seu coração batia acelerado. O meu primeiro beijo nunca acontecia. Tentei com Vanessa, com Michele e com Pâmela. Meu coração, como o de Tiago, também batia acelerado, mas o beijo não aconteceu. Sexo? O que era isso, mesmo?
O gigantesco SUPEREGO (que alguns chamam Deus, outros chamam consciência e um povo aí resolveu nomear homofobia internalizada) nos impede de entender aqueles sentimentos totalmente fora da norma que vêm a tona no tempo mais controverso da vida. Comecei a perceber que aqueles sentimentos que meus amigos tinham pelas meninas eu tinha por alguns deles. Meu coração acelerava quando eu ia falar com o Tiago. Meu pênis ficava ereto diante do Wellington. Coração bobo, pinto levado. Estava tudo errado.
Demorou muito para que eu pudesse entender as ideologias que constroem os padrões para o que será considerado certo ou errado. Para ninguém amar era proibido. Por que para mim seria? Talvez porque fosse perigoso, afinal eu era uma aberração. Mais adiante descobri que existem lugares para que as aberrações possam se encontrar sem medo. Os guetos, verdadeiros campos de refugiados (caríssimos) onde as pessoas podem se mostrar como são. Ali uma aberração entende a outra. E mesmo ali o grande SUPEREGO nos acompanha. É preciso beber um pouco pra começar a ter coragem. É preciso beber mais um pouco pra ir pra pista de dança e mais um pouco pra conseguir tocar na outra aberração. Acontece o flerte fatal e, no final, em meio a um estranho constrangimento, cada aberração pega o seu barco e volta pro ninho.
Dizem por aí que o SUPEREGO é a parte do juízo solúvel em álcool. E o álcool, por sua vez, é uma espécie de suco de frutas Gummi, ou aquele espinafre do marinheiro Popeye. A bebida alcoólica (dentre outras drogas) é um instrumento muito utilizado pelos homossexuais seres humanos para poderem se livrar da culpa, do medo ou da vergonha. E isso pode gerar problemas como: “nossa, como era mesmo o rosto daquela pessoa que eu beijei ontem?” ou “ai, esqueci de pôr a camisinha”, quando não causa dependência. Muitas aberrações só se mostram aberrações na balada. Durante o dia permanecem disfarçadas, como um mutante com medo de ter os seus poderes descobertos. E isso impede, por exemplo, a construção de relações mais profundas. O amor acontece por uma noite apenas, já que ninguém pode descobrir quem eu sou.
É verdade que do lado de fora as coisas não são tão fáceis assim. Dar a cara a tapa é uma atitude de muita coragem e estar fora do armário traz consequências definitivas para a vida dos homossexuais (às vezes consequências bastante dolorosas, outras vezes agradáveis, mas sempre marcantes). O maior benefício de ser uma aberração assumida é o fato de poder lutar por direitos e tomar partido na construção de uma sociedade diferente. Não é possível para os homossexuais seres humanos encontrar a felicidade na sociedade em que vivemos hoje, especialmente para os mais pobres. As revoluções que proclamavam liberdade, igualdade e fraternidade limitaram-se a melhorar a vida de uns poucos. Cadê a minha fatia do filé?
Já é hora de nos libertarmos de todas as correntes que nos impedem de sermos nós mesmos. Tem gente que acredita no fim do mundo, mas não acha que é possível transformar essa sociedade machista, racista e homofóbica. Eu acredito que é possível e, para me livrar do gigante SUPEREGO, tornei-me militante e estou disposto a enfrentar o que for necessário, como um verdadeiro guerreiro, para que haja um mundo novo em que eu não precise disfarçar o meu rebolado. Usarei meus poderes de aberração mutante para acabar com a exploração que nos extorque toda a riqueza que produzimos e para construir o socialismo – que acredito ser a única forma de, hoje, darmos um basta ao que nos impede de sermos felizes. Pós modernos que me desculpem, mas estou com Malcom X e não abro: Não há capitalismo sem homofobia.
Essa história de Dia do Homem é uma besteira sem tamanho, né? Mas a gente aproveita a deixa pra refletir. É que dizem por aí que homem não chora, coça o saco, não usa rosa e gosta de futebol. Ah, se foder, que isso já está bem demodê. Eu estava na boate e tocou Vale Tudo do Tim Maia “Só não pode dançar homem com homem, nem mulher com mulher”. Brochei. No mesmo dia, alguns amigos ocós estavam me contando sobre a experiência do fio terra. Fofos! A masculinidade é uma construção social, todo mundo lembra da Simone de Beauvoir. Em seu livro “O Segundo Sexo” a francesa publicou a famosa frase “ninguém nasce mulher; torna-se mulher”. A sua vó falava que homem com homem dá lobisomem, não falava? Pois, meu bem, já pensou se sua avó estivesse enganada? Milton Nascimento, diva da MPB, cantou: “Toda maneira de amor vale a pena”. Essa eu não ouvi na boate, mas toca aqui na minha vitrola de vez em quando. A música aí de baixo, sim, toca na boate. Os meninos ucranianos do Kazaky surpreendem e nos ajudam nessa discussão. Beijo!
Segundo a perspectiva marxiana, os sentidos humanos não são plenos num mundo em que o homem se vê impedido de desenvolver potencialidades pelo fato de terem-lhe arrancado características suas. A alienação do produto do trabalho, a alienação do próprio trabalho e a alienação de seu gênero (humanidade) faz com que o homem não consiga encontrar sua plenitude e a felicidade se limita a ser realizada em curtos períodos de tempo, especialmente naqueles que mais se assemelham com as características animais (comer, beber, dormir, procriar). Assim, o homem sente-se humanamente livre e feliz em atividades que realiza quando termina a sua jornada de trabalho: é no seu horário de folga que começa a vida à mesa, no boteco, na cama.
Marx, em O Capital, diz que a alienação faz com que produtos do cérebro humano pareçam dotados de vida própria, entidades autônomas que mantém relações entre si e com os homens. É assim no mundo religioso, quando o homem mesmo cria divindades, anjos ou demônios e lhes dá vida própria; assim é no mundo do trabalho, quando a mercadoria produzida pelo homem ganha características extraordinárias e parece seguir uma lógica que não depende das relações humanas. Segundo análise nossa, isso também se dá no âmbito do afeto.
Podemos entender aqui o amor como um sentido humano prático ou espiritual, como bem define Marx nos Manuscritos Econômico-Filosóficos. Tanto os cinco sentidos (olfato, audição, tato, paladar, visão) como os sentidos espirituais (desejo, amor, etc) não são, no homem, sentidos brutos como nos animais. São sentidos carregados de humanidade, já que o homem não percebe a natureza como os animais. A natureza é a base da experiência humana e é um laço do homem com os outros homens. A existência natural do homem tornou-se sua existência humana e a própria natureza tornou-se humana para ele. Quando o homem transforma a natureza ele próprio se objetifica nela, torna a natureza humanizada. Para Marx, é evidente que o olho humano aprecia as coisas de maneira diferente do olho bruto, não-humano, assim como o ouvido humano diferentemente do ouvido bruto[1]. Quando não se reconhece no objeto criado (natureza humanizada) o homem não desenvolve toda a potencialidade de seus sentidos, bloqueia-os e, assim, o homem torna-se cada vez mais pobre como homem, cada vez mais próximo da animalidade.
Além de não conseguir desenvolver a potencialidade humana de seus sentidos, o homem também sofre a partir das mutilações criadas pela alienação. O amor, como sentido humano prático, espiritual, pode ganhar vida própria e ser hostil quando separado daquele que o gerou. Amor é construção humana, pressupõe conhecimento, exercício, esforço, parceria. Segundo Erich Fromm, o amor deve ser aprendido e envolve domínios que devem estar interpenetrados: o da teoria e o da prática[2]. O amor é relação humana social, é construção. Quando alienado, torna-se uma força estranha, dotada de vida própria, pode ser hostil e causar sofrimento.
Isso pode se dar devido a diversos fatores, mas podemos relacionar a alienação à ideologia do amor romântico. O afeto é sentimento que pressupõe relação humana. É uma construção que envolve, pelo menos, dois sujeitos. O mito do amor romântico, no entanto, abarca um conjunto de fatores psicológicos (ideais, crenças e expectativas) que faz com que ele deixe de ser apenas mais uma forma de afeição. Ele é uma ideologia burguesa que surgiu pela necessidade de se manter a família como instituição mesmo que já não haja o casamento comprado. Hoje ainda é importante para o capitalismo que a sociedade se organize em núcleos com papai, mamãe e filhinhos. Para o capitalista, deve haver a certeza de que poderá transmitir a sua herança para os filhos e mantê-la em seu nome. Engels diz que as designações “pai” e “filho” não são simples títulos honoríficos, mas, ao contrário, implicam em sérios deveres recíprocos, perfeitamente definidos, cujo conjunto forma uma parte essencial do regime social de alguns povos[3]. Para a manutenção da riqueza acumulada, a família monogâmica se torna uma necessidade, assim, sustenta-se a ideologia do amor romântico. Segundo Regina Navarro, ele não é construído na relação com uma pessoa real, e sim sobre a idealização que se faz dela. Prega crenças como: quem ama não sente tesão por mais ninguém e todos devem encontrar um dia a “pessoa certa” [4].
O amor alienado é aquilo que pode ser chamado de paixão, um sentimento humano que ganha vida própria e se destaca, tornando-se estranho, hostil. Traz a impressão de ter vindo de fora, de não ter sido construído pelo sujeito. Isso não quer dizer que ele não é verdadeiro. É produto humano separado dele, mas é produto humano, ainda. Sendo real, pode causar dor e sofrimento, como o medo que as crianças sentem dos fantasmas que elas mesmas criam. O amor idealizado é frustrante, gera crise e depressão. Como pode um sentimento tão humano fazer sofrer? Quando se desgruda de quem o criou, o amor torna-se irreconhecível e ganha super-poderes. A expectativa criada diante da idealização de um personagem é quebrada a cada nova experiência material e a realidade concreta fere aquela imagem que o amor romântico deu ao sujeito apaixonado.
Como um condicionamento cultural, uma ideologia, o amor romântico não pode ser tido como forma de relacionamento humano natural, já que, como vimos, tem outras intenções (a transmissão da riqueza acumulada). O amor verdadeiro de um sujeito pelo outro é algo sem segundas intenções. Numa relação entre duas ou mais pessoas o amor deveria sempre ser incondicional, despretensioso e, assim, agradável, porque é sentido humano prático e, assim como os outros sentidos, é instrumento de percepção do mundo. No entanto, a maneira como mundo se organiza hoje impede a sua realização plena. A ideologia do amor eterno e da pessoa ideal ainda é muito forte e só será superada com a transformação da realidade material para que o homem possa sentir-se humanamente livre e feliz.
[1] MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2005. p. 142 e 143.
[2] FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
[3] ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do estado. São Paulo: Expressão Popular, 2010. p 46.
No bar o homenzinho bate a mão na mesa e anuncia com a voz num tom mais grave que o habitual a novidade: “peguei a gostosa da seção 22″. Nesse momento é possível ouvir urros e brindes. “Cachorrona!”, grita um dos colegas do homenzinho, “aquela puta deu pra mim no banheiro da chácara de fim de ano”. Mais urros e barulhos de copos tilintando. Atrás deles, na propaganda de cerveja, Juliana Paes posa de biquini, fazendo cara de safada.
Nesse instante entra no bar um belo rapaz sem camisa, de bermuda e suspensório. Todos os caras chiaram ao mesmo tempo, fazendo caras e bocas. “Esse desmunheca”, gritou o homenzinho enquanto todos se entregavam a uma estrondosa gargalhada. Instantes depois o rapaz sai do bar chorando e gritando: “vai dar o cu, seu enrustido”. A companheirada gargalhou mais uma vez. O garçom se aproximou da mesa deles e contou que expulsou o rapaz do bar porque ele estava bêbado, sem camisa e rebolava, as pessoas ficam constrangidas com isso. O homenzinho apoiou com a cabeça a atitude do garçom e disse: “essas bibas são muito vulgares. Será que o boiolinha não reparou que tem crianças nesse bar?”, concluiu, apontando a mesa ao lado da sua, onde uma família lanchava e se divertia.
A sodomia era considerada perversão sexual em algumas sociedades antigas. Nos relatos da Bíblia, dar o cu era pecado e, segundo interpretações realizadas por igrejas cristãs, isso fez com que Deus, por meio de sua fúria, acabasse com duas cidades: Sodoma e Gosmorra (Gênesis, capítulo 19).
Na época da inquisição, a sodomia era considerada crime sexual.
O antropólogo brasileiro Luiz Mott teve acesso a alguns documentos. Segundo descrição dos inquisidores feita em 1646, Luís Gomes Godinho era um homem magro, alto, tinha cabelo crespo e pouca barba. Foi preso sob a acusação de ser um “sodomita devasso”.
Sob pressão dos inquisidores, Godinho confessou mais de duas dezenas de atos homoeróticos, como “agente e paciente”. Contou que foi possuído de “ilharga” (“de ladinho”) pelo seu patrão, que participou de um ato de “sodomia completa” com um sacristão e de outro incompleto com um preso. Relatou que fizera parte de uma “suruba” com seis sodomitas, entre os quais um padre e um militar, e que já participara de vários “molícies”.¹
Imagem: Sinai Calif-Israeli
Homossexuais ainda hoje são vistos como gente vulgar, devassa e promíscua. Provocam as pessoas com o seu comportamento leviano, gestos obscenos e palavrões. São imorais. “Não é à toa que existe pedofilia”, pensam os mais antenados com o padrão católico de comportamento. Os homossexuais são anormais, afinal não se enquadram nos termos da modernice heteronormativa. Talvez pelo motivo de não concordarem que azul é cor de menino e rosa cor de menina sintam-se um pouco deslocados de vez em quando. Terminam por criar linguagens próprias, algumas vezes questionadoras, outras vezes ininteligíveis por quem não faz parte do seu universo guetificado.
Mas o que é promiscuidade? Segundo a Wikipédia, “promiscuidade denota um comportamento sexual humano, de sexo casual entre pessoas conhecidas ou não conhecidas entre si, principalmente entre pessoas não casadas”. O movimento GLBT há anos vem lutando pelo direito do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Na Califórnia, a “Proposição 8″ vem causando muita polêmica por ser um projeto de lei que propõe a proibição do casamento gay. Diversas campanhas estão pipocando nos EUA. Em uma delas, os atores Justin Long e Mike White protagonizam um vídeo que trouxe alguns elementos especiais para essa discussão: eles vivem uma história de amor em que o entusiasmo do início de sua relação vai se desgastando com o passar do tempo.
Uma instituição conservadora como o casamento é, hoje, uma das maiores bandeiras de luta do movimento GLBT no mundo. Então como é possível dizer que homossexuais são, em sua maioria, promíscuos? Questionar a moral estabelecida não é sinônimo de leviandade. Pelo contrário: algumas posturas dos homossexuais são uma forma de subverter a linguagem e representam muito mais um instrumento de resistência que um sinal de devassidão.
A notícia divulgada essa semana pelo Ministério da Saúde mostra que os jovens gays do sexo masculino se protegem menos que os heterossexuais em suas relações: “53,9% dos homossexuais entre 13 a 24 anos usaram camisinha na primeira relação sexual, índice abaixo dos 62,3% registrados entre heterossexuais na mesma faixa etária”². À primeira vista pode parecer um dado revelador de quanto os homossexuais são mais promíscuos. No entanto, a mesma pesquisa divulgou números que demonstram os altos índices de violência sofrida por esses jovens que nos ajudam a tirar outras conclusões:
Entre homossexuais ouvidos no estudo, 12,4% disseram já ter sido agredido fisicamente, 51,3% disseram já ter sido discriminados no trabalho e 29,6% ter sofrido discriminação por causa da orientação sexual alguma vez na vida. O estigma está presente também nas escolas e ambientes religiosos: 28,1% disseram ter sido discriminados no ambiente escolar e 13%, em locais de prática religiosa².
Imagem: Guillermo Riveros
A discriminação e a violência são elementos que impedem o homossexual de assumir publicamente sua orientação. Estar dentro do armário significa ter de se esconder para poder relacionar-se livremente com a pessoa que ama ou com um parceiro sexual. O ato sexual é tido como proibição e só pode ser realizado na marginalidade. Banheirões públicos, becos, bosques e dark rooms de casas noturnas são espaços em que frequentemente se relacionam pessoas do mesmo sexo, especialmente as mais pobres que geralmente moram com os pais e não tem condições financeiras para pagar um motel. Nem sempre se tem uma camisinha à mão. Para ter coragem de chegar a esse tipo de ambiente e assumir as posturas que aí se exige, muitos jovens se apegam ao artifício da bebida alcóolica ou até mesmo drogas ilícitas, o que aumenta sua vulnerabilidade.
Em 1968 ficou conhecido mundialmente o movimento que questionava os padrões morais, religiosos e econômicos que reprimiam os desejos de homens e mulheres. Um discurso ao melhor estilo é proibido proibir tomou conta de manifestações juvenis em todo o mundo. Valores defendidos por essa geração tornaram-se conquistas que puderam ser vivenciadas pela atual geração. A chamada revolução sexual deu maior liberdade às mulheres e expressões sexuais que antes eram reprimidas. No entanto, ainda se vive sobre regras arbitrárias. Juliana Paes, ídolo pop da televisão brasileira, pode sorrir de biquini com a lata de cerveja na mão, mas Geisy Arruda, estudante suburbuna, não pode ir com seu vestido rosa à universidade. Segundo a psicóloga francesa Elisabeth Daibleu, as pessoas continuam extremamente presas a valores antigos:
Não vivemos uma sexualidade livre da mesma forma que não vivemos numa sociedade livre. Ainda somos vítimas de pré-julgamentos impostos pela moral que permeia o meio em que vivemos, ainda que eles estejam camuflados³.
A psicóloga lembra que durante aquele movimento não se previu que casais homossexuais conquistariam o direito ao casamento, no entanto, também não é possível entender como mais de quarenta anos após as manifestações ainda existiriam países que determinassem as relações entre pessoas do mesmo sexo como crime.
A revolução não pode ser apenas moral. É necessário que se mude toda a estrutura ideológica predominante. A maneira como se organiza a sociedade, hoje, faz com que uns poucos privilegiados possam exercer uma liberdade especial, a dita liberdade de consumo, enquanto a maioria das pessoas ainda vive de migalhas e faz da sua diversão uma festa clandestina. Não é possível ser livre se a manifestação de sua identidade fica restrita aos porões, becos e vielas. Isso não se limita aos problemas vivenciados pelas pessoas homossexuais, mas pode ser observado na vida dos que professam sua fé em religiões afro-brasileiras ou no trabalho dos artistas de rua, por exemplo.
A glamourização da vida homossexual divulgada pelas novelas em que gays são aceitos pelos pais, não sofrem violência e vivem felizes para sempre com seus parceiros não reflete, de maneira alguma, a realidade da maioria dos homossexuais. Gays e lésbicas trabalhadores são massacrados diariamente pela opressão a que são sujeitados por manifestar sua orientação sexual. Travestis e transexuais sofrem com a discriminação e a violência inclusive em seu próprio meio. Submeter-se a um cotidiano de exploração sexual não é nenhum tipo de bagunça, não.
Faz-se necessária a construção de um movimento GLBT que consiga, além de afirmar os direitos dos homossexuais e levantar a bandeira do orgulho, pensar numa transformação radical das bases que fabricam a opressão e promover a mudança estrutural dessa sociedade que, ainda hoje, mais de quatro décadas depois da revolução sexual feminista e da rebelião de Stonewall, continua machista e homofóbica. Assim como disse Harvey Milk, “não é possível viver só de esperança, mas sem ela não vale a pena viver”. O movimento da luta contra a opressão tem que ser ele mesmo já um sinal da mudança possível. “Sem esperança nós desistimos”.
RT @danidutafalando: Parabéns ao @pstu por ser o único partido a defender em rede nacional a luta contra a opressão ao negro, à mulher e ..._carlinhos_7 hours ago